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The Travellight World

Inspiração, informação e Dicas de Viagem

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Ter | 09.03.21

Uma longa travessia do deserto

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Partimos da capital da Namíbia, Windhoek, num pequeno, mas moderno avião monomotor. Foi um voo de pouco mais de uma hora. Tranquilo, sereno… um contraste gigante com a tensão nervosa que a discussão da manhã tinha provocado nos nossos espíritos.

Não devia ter vindo” — repetia de mim para mim, enquanto a paisagem lá em baixo corria veloz e ficava cada vez mais estranha.

Pousamos numa pequena pista de terra batida. A localização era verdadeiramente espetacular. Lembrava as fotografias que as sondas espaciais enviam da superfície de Marte.

A vida tem destas ironias. De certa forma este cenário era perfeito para um casal desavindo. O deserto mais antigo do mundo.

Um chão árido, avermelhado, com dunas altas e instáveis. Sem sinal (aparente) de vida…

Olhei para o lado, à procura daquele olhar cúmplice que sempre me esperava quando chegávamos a um novo destino... Nada, só o vazio…
Não devia ter vindo”.

Como uma ilha de luxo no meio de nada, o Sossusvlei Desert Lodge esperava-nos. Deixei-me estar calada enquanto um simpático funcionário nos dava as boas vindas e explicava uma série de coisas sobre a acomodação e os passeios reservados.

Já no quarto, o silêncio instalou-se. Eu queria falar, mas as palavras morriam-me na boca.
Não devia ter vindo

Por sorte, um novo confronto foi adiado pelo extenso programa que tínhamos marcado. A primeira excursão começava dali a minutos.

Com a ajuda de um guia, fizemos uma caminhada de cerca de 45 minutos até a entrada de uma caverna que ficava no limite do Parque Nacional Namib-Naukluft, mais propriamente na Reserva Natural Namib Rand, uma propriedade privada. O início da caminhada foi fácil, mas para o fim o terreno apresentava-se mais rochoso e íngreme. Incomodou-me que ele não me tivesse dado a mão nalguns trechos mais difíceis, mas não me queixei.

Aquilo que queríamos ver era uma série de pinturas feitas há 2.000 ou mais anos atrás. A tinta usada era uma mistura de sangue animal e pó de rocha ocre. Surpreendeu-me o quão bem preservadas estavam as pinturas já que se encontravam completamente expostas aos elementos.

O sangue derramado em prol da arte é duradouro” — pensei.

Ao contrário da ida, no caminho de regresso apanhamos muito vento, muita poeira e o guia calado. O silêncio, que eu tanto prezo e que sempre fora tão confortável entre nós, agora parecia-me absolutamente insuportável.

Eu sentia-me miserável...

Uma nova paragem no Lodge para refrescar e, com um mínimo de palavras trocadas, estávamos de novo em movimento, desta vez num 4x4, a acelerar ao longo do topo e das laterais das belas dunas de areia vermelha da Reserva Natural Namib Rand.
Ele divertiu-se tanto com a experiência, que por momentos esqueceu-se que estava zangado comigo.

A esperança renasceu...

O dia estava a terminar e o por do sol parecia mudar a paisagem minuto a minuto, lançando sombras e pintando com cores fortes todo o cenário à nossa volta. Estávamos sozinhos e o silêncio era, mais uma vez, ensurdecedor.

— Podemos falar? — perguntei.
Não há nada mais para dizer — respondeu com frieza

A esperança morreu...

Senti, que ele estava a usar o silêncio para controlar a situação. Um silêncio manipulador que sufocava. Aquele tipo de silêncio insidioso em que não compartilhamos os nossos pensamentos para tentar controlar as reações e o comportamento do outro.
Aquele silêncio que é usado para punir e para obstruir qualquer oportunidade de resolução.

Calei-me. Não valia a pena insistir.
Não devia ter vindo

Jantei no quarto, ele no restaurante. Quando voltou já eu estava deitada na cama. Não tentei qualquer aproximação.
Durante a noite senti a sua respiração e as voltas que dava na cama. Não dormia. Eu também não. Ainda assim continuamos calados.

Por cima de nós brilhava o céu estrelado da única Reserva Internacional Dark Sky da África.
Cá em baixo, porém, só escuridão...

Era de madrugada quando saímos para visitar o Mar de Areia da Namíbia (Namib Sand Sea) — uma das maravilhas naturais do país. O acesso facilitado ao Parque Namib-Naukluft, onde está integrado este Património Mundial da Humanidade, foi a principal razão para termos escolhido como base a região de Sossusvlei.

Localizado na costa do Atlântico Sul da África, este deserto é o coração da Namíbia. É uma área imensa, com espetaculares dunas de areia, empilhadas em incríveis formações que resultam principalmente da interação dos ventos terrestres e marítimos, bem como da influência do fluxo de rios sazonais e de eventos ocasionais de inundação.

O guia propôs que subíssemos a Duna 45 — provavelmente a duna mais famosa e fotografada de Sossusvlei.

Com 170 m de altura, a Duna 45 pode parecer fácil de escalar, mas as encostas incrivelmente íngremes tornam difícil chegar ao topo.

Debati-me durante a subida, abatida pelo esforço físico, pela falta de sono e pela fragilidade emocional. A vista, no entanto, compensou.

Aquela paisagem era surreal!

A areia sob os nossos pés, apresentava uns vibrantes tons de laranja e vermelho que os primeiros raios do sol só pareciam realçar. Era como se ao longo de milhares de anos, a areia tivesse, literalmente, enferrujado com a neblina matinal e se transformado num extraordinário “mar” que seguia até ao infinito e depois abraçava o azul do céu.

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Na língua nàmá local, “Namib” significa "uma área onde não há nada”, mas este lugar árido e inóspito estava longe de ser um local sem vida. O deserto mais antigo do mundo possui uma diversidade notável de plantas e animais que desenvolveram adaptações especiais para conseguir viver neste ambiente difícil e hostil.

Tive de aceitar a palavra do guia porque à primeira vista eu não conseguia ver vida em lado nenhum.

Talvez fosse o estado de espírito a cegar-me...

Na descida escorreguei. A mão que veio em meu auxílio voltou a dar-me esperança, mas foi muito breve.

Vimos o Big Daddy, outra famosa duna, e depois seguimos até Dead Vlei — Uma espécie de floresta desolada, preservada no tempo.

É uma paisagem estranha, um lugar sem volta, ainda mais antigo e muito mais morto do que as dunas de Sossusvlei.

Por Dead Vlei já passou um rio, mas depois o clima mudou e as dunas acabaram por isolar toda aquela área. Ficou demasiado seco até para as árvores se decomporem e elas simplesmente queimaram sob o sol ardente, criando uma floresta estéril formada por esculturas pós-apocalípticas.

.

Aquela visão deu-me vontade de chorar.

O ar quente atingiu os meus olhos como um secador de cabelo. Parecia sugar toda a humidade da minha pele.

Eu senti-me tão seca e morta como aquela paisagem.

Então o deserto sussurrou-me: “Nenhuma bússola te pode orientar aqui”.

Talvez eu estivesse a alucinar por causa do calor, ou talvez estivesse mesmo a enlouquecer... do sol, da culpa, da dor...

Não devia ter vindo! — Tive vontade de gritar.

Achei que poderia ir até ali, até ao deserto mais antigo do mundo e “consertar” todos os problemas. Que ingénua!
Em vez disso fui confrontada com a verdade desconfortável da minha própria realidade. Aquela não era mais uma viagem, uma nova aventura ou um conteúdo para a conta de Instagram... Não, aquela era a minha travessia do deserto.

E eu estava ali só, completamente só. A lamentar a minha sorte.

A paisagem de Dead Vlei agredia-me como um espelho refletor. Fazia-me doer o corpo. Doer a alma.

Estéril. Incapaz de dar fruto. Não por natureza, mas por opção.

Essa era a sua acusação contra mim. Esse era o meu crime.

Quando vais estar pronta? — Perguntara-me na manhã da discussão pela centésima vez.
Não sei... talvez nunca...

Eu tentei no passado. Aconteceu.
...e depois não aconteceu.

Deus não quis” — disse-me alguém.

Entretanto algo secou, como o rio que outrora correu no Dead Vlei, e o desejo morreu em mim.

Depois veio a confirmação da doença autoimune e com isso alguma validação de que eu estava certa.

Mas hoje em dia, isso não é impedimento” disse-me a médica.

Podemos tentar” — disse-me ele,
Há várias formas

Não disse que sim. Não disse que não. Só disse: the timing is bad.
Sendo a relação à distância, o timing nunca seria bom... Mas ele nunca desistiu.

Nasceu a culpa: ”Deve haver algo de errado comigo, tantas mulheres querem e não podem ou não conseguem... Como queres que alguém compreenda a tua posição?.”— dizia-me o subconsciente.
É um direito teu, não há nada de errado” contestava o lado mais racional.

Pensei que estava bem. Que apesar de tudo era uma pessoa equilibrada...Até aquela discussão, até aquele maldito meltdown em pleno Deserto da Namíbia.

Eu soluçava e as lágrimas corriam imperáveis quando a sua mão limpou o meu rosto e tirou-me da solidão.
— “Não fiques assim, acalma-te. Tudo se há-de resolver”.

Voltamos a falar, a abraçar, a beijar, a partilhar, porém não terminou ali a minha travessia do deserto.

Há anos já, que o Dead Vlei ficou para trás, mas a imagem daquele campo estéril ainda está muito presente na minha vida.

A travessia ainda agora começou...

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