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The Travellight World

Inspiração, informação e Dicas de Viagem

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Sex | 06.11.20

O Sentido de Decência Americano

“You can always count on Americans to do the right thing — after they’ve tried everything else.”
— Winston Churchill

Esta frase de Winston Churchill resume na perfeição aquilo que penso e aquilo que sinto ao ver Joe Biden tomar a liderança nas eleições americanas.

We-the-People

Os Estados Unidos são um país que conheço bem. Seja por motivos pessoais ou por motivos profissionais, muitas foram as vezes que tive de viajar até à terra do Tio Sam. Tenho família por lá (republicanos) e fiz amigos (quase todos democratas). Pessoas que considero equilibradas e sensatas, mas que no último ano se atacaram e discutiram com paixão, numa guerra cega e de surdos mudos em que nenhuma das partes queria ver ou ouvir a outra.

Os meus amigos democratas ficaram surpresos, (diria até chocados) por a “onda azul”, tão esperada pelos democratas não se ter concretizado.

Eu não.

Este resultado não me surpreendeu de todo. Acho que quando estamos de fora temos uma visão mais clara das coisas.

Os EUA são enormes, a vastidão do país é avassaladora e profundamente desafiante. Podes passar horas e horas a conduzir e não sais do mesmo Estado.
Viajar pela América é como visitar um conjunto de países, cada um com sua própria identidade e cultura. Rapidamente percebemos que a vida na zona rural do Nebraska tem pouco em comum com a vida nas cidades grandes como Nova York e Los Angeles e muito pouco em comum com as montanhas do Idaho. Isso para não falar no Alasca ou no Hawaii, que são outro mundo.

Cerca de 95% das terras dos EUA estão classificadas como rurais. O país é grande e cheio de “nada”. Assim que deixas as grandes cidades, só vês campo, campo e mais campo. É bonito, é inspirador, sim… mas também é avassalador.
O rádio só apanha estações de country music ou de christian rock (rock cristão) e as pequenas cidades que cruzas, às vezes só tem 20 pessoas (ou menos). Pode haver poucas casas, lojas ou restaurantes, mas há centenas de igrejas e milhares de placas de "Jesus é o Senhor" ao longo da estrada. A grande maioria da América é profundamente cristã.

Viajar pelo interior ajuda a compreender por que é que o país se tornou, nos últimos anos, gradualmente mais conservador.

As pessoas que vivem nos meios rurais sentem-se incompreendidas e até desprezadas pelos americanos que vivem noutros tipos de comunidade. Cerca de dois terços ou mais nas áreas rurais dizem que aqueles que vivem nas cidades grandes não os entendem, nem valorizam os problemas que eles enfrentam.
As áreas urbanas estão atualmente na vanguarda da mudança racial e étnica, com os não-brancos a ganharem cada vez mais espaço, enquanto a maioria da população nas áreas rurais se mantém branca.

Os americanos que vivem em comunidades urbanas e rurais têm, na sua maioria, visões muito diferentes sobre questões sociais e políticas. Podíamos dizer que isso se deve ao fato das áreas rurais tenderem a ter uma maior concentração de republicanos e independentes com tendência republicana, enquanto a maioria nas comunidades urbanas se identifica ou se inclina mais para o partido democrata, mas a verdade é que as diferenças entre os tipos de comunidade permanecem, mesmo depois de excluirmos o partidarismo. Os republicanos rurais, por exemplo, são mais propensos do que os republicanos nas áreas urbanas a dizer que a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo é uma coisa má para a sociedade. Por sua vez, os democratas de todos os tipos de comunidade expressam diferentes pontos de vista sobre a imigração, com aqueles que vivem em áreas urbanas mais propensos do que os seus contrapartes rurais a dizer que o número crescente de recém-chegados fortalece a sociedade americana.

A América rural parece ter, definitivamente, voltado as costas à América urbana.

Durante décadas, um conjunto de valores, ideias e princípios básicos, foram a “cola” que uniu o país, mas agora isso parece ter deixado de existir. Donald Trump só veio tornar isso (mais) claro.
Para as comunidades rurais (e para muitas comunidades suburbanas), ele é aquele que lhes dá voz, que lhes dá força, que os “vê”.
Muitos ouviram esse “chamamento” em 2016 e quiseram apostar numa “wild card”. Estavam dispostos a mudar. Afinal como dizia Churchill, os americanos estão dispostos a tentar tudo. Resta saber a que preço.

Se Joe Biden, de facto ganhar, não será por muito, o Senado continua dividido, a maioria democrata na Câmara dos Representantes é fraca… As cicatrizes vão continuar abertas e as diferenças vão subsistir.
No entanto, penso que a sua vitória vai demonstrar que ainda existe algo que une o país, ou pelo menos a maioria dos americanos: o sentido de decência.

Joe Biden, vai ganhar, não pelas suas ideias políticas ou brilhantes propostas, mas sim porque não é Donald Trump.
Porque, no final de contas, um bully, não pode (não deve) ganhar. E isso é verdade, tanto numa comunidade de 20 pessoas como numa cidade com 5 milhões.

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