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The Travellight World

Inspiração, informação e Dicas de Viagem

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Sab | 20.06.20

Roteiro Literário | Um passeio por Barcelona à Sombra do Vento

Visitar uma cidade guiada por um romance, é uma das coisas que mais gosto de fazer onde quer que vá e a Barcelona que hoje aqui recordo é a que me foi contada por Carlos Ruiz Zafón.

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Procurando seguir os passos de Daniel Semperee em A Sombra do Vento, comecei o meu percurso na Carrer de Santa Ana, uma rua estreita, meio escondida no Bairro Gótico de Barcelona, que liga a Avenida Portal de l'Àngel a Las Ramblas e abriga lojas pequenas e comercio local. A livraria da família Sempere podia bem ser ali…
Como Daniel e o seu pai moravam num “pequeno andar (...) junto da praça da igreja”. Procurei um pouco e encontrei uma Igreja no centro do quarteirão. Era a igreja de Santa Ana, uma bonita construção do século XII, de estilo românico e gótico, que já foi um mosteiro pertencente à Ordem do Santo Sepulcro.

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Imaginei Daniel num dos apartamentos da estreita rua perto da praça da igreja, a espreitar por uma das varandas, sonhando com os seus livros e com Clara. E pensando no misterioso Julián Carax.

Segui para as Ramblas e perto do mercado La Boqueria, encontrei a Carrer del Arco del Teatre, onde o autor coloca os eventos de "A Sombra do Vento" em movimento. O arco que conduz à rua era um pouco escuro e sombrio, mas eu atravessei-o e senti como se tivesse, literalmente, entrado dentro do romance pois não havia vivalma por ali. Apenas uma homem — que poderia ser o próprio Lain Coubert — e garagens cobertas de grafitti e portas pesadas, algumas com grades, que por trás pareciam esconder pequenos e grandes segredos.

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A rua era, tal como descrita por Zafón “mais cicatriz que rua”. As paredes cheiravam a humidade e pareciam escuras e sujas. Quase esperei encontrar mesmo o Cemitério dos Livros Esquecidos, mas nada...
Não fiquei muito tempo, começava a escurecer e não havia ninguém por perto. Era como se Barcelona, naquele local, estivesse abafada e esquecida. Caminhei em direção à luz, para um lugar mais aberto onde conseguisse respirar melhor.

Com o cair da noite o misterioso, mas belo labirinto de ruas, becos e passagens quase secretas do Bairro Gótico de Barcelona, é tão fascinante, quanto assustador e a coragem para continuar a explorar, abandonou-me. Contudo ainda passei na (mais luminosa) Praça Real onde morava Clara, admirei os candeeiros desenhados por Antoni Gaudí e segui pela Carrer Ferran para ver a loja de chapéus que fica no n. 2 da rua e que no livro pertence a Fortuny.

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No dia seguinte continuei a minha jornada através da Barcelona de Zafón e acabei a andar pelas ruas da Carrer Jaume I e Carrer de la Princesa, da mesma maneira que Daniel teria feito quando viu a caneta Montblanc Meisterstuck pela primeira vez.

Segui para a Carrer Montsió e parei no Els Quatre Gats, um famoso restaurante inaugurado em 1897 que já teve como clientes artistas como Pablo Picasso. O espaço chegou a ser a sede de uma sociedade local chamada Círculo Artístico de São Lucas (Cercle Artístic de Sant Lluc) e em A Sombra do Vento é o local onde “Barceló e os seus compinchas mantinham uma tertúlia bibliófila sobre poetas malditos, línguas mortas e obras-primas abandonadas à mercê da traça”.. É também o lugar onde Daniel vai com o pai em busca de informações sobre Julián Carax.

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A paragem seguinte foi o Ateneo Barcelonés, localizado na Carrer de la Canuda. É no Ateneu que Daniel conhece Clara Barceló, o seu primeiro amor.
O Ateneo Barcelonés é uma associação civil fundada em Barcelona no ano de 1860 e que durante o século XX transformou-se num importante centro cultural. Hoje, a instituição alberga uma rica biblioteca e ocupa o Palácio Savassona, uma mansão construída em 1796 e adquirida pelo Ateneu em 1906.
Durante a Guerra Civil Espanhola, época em que se instala a ditadura franquista e durante a qual se desenrola a história de Zafón, a biblioteca esteve sob o controle da Dirección del Servicio de Bibliotecas Populares e converteu-se numa biblioteca pública.

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Observei de passagem o edifício histórico da Universidade de Barcelona, onde Daniel reparou pela primeira vez na beleza de Bea, irmã de seu melhor amigo.

Continuei até à Praça de San Felipe Neri onde Daniel avistaria, sentada a ler, a bela Nuria Monfort.
Construída sobre um antigo cemitério medieval, no Bairro Gótico de Barcelona, esta praça e a sua igreja foram testemunhas importantes da violência da Guerra Civil Espanhola. Na praça, ainda hoje conseguimos ver os restos de estilhaços de uma bomba que durante a guerra causou a morte de quarenta e duas pessoas, na sua maioria crianças.

Segui para o Porto de Barcelona e ainda à distância, consegui ver o enorme monumento a Cristóvão Colombo onde Daniel encontrou o sinistro incendiário, uma figura estranha e deformada. Como me sentiria se me cruzasse com tal personagem? Da mesma maneira que Daniel talvez...

 “A chama iluminou pela primeira vez o seu semblante. Gelou-se-me a alma. Aquela personagem não tinha nariz, nem lábios, nem pálpebras. O seu rosto era apenas uma máscara de pele negra e cicatrizada, devorada pelo fogo.”

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O dia já ia longo quando cheguei a Tibidabo, o pico mais alto de Barcelona e à Avenida com o mesmo nome. A Avenida del Tibidabo e o seu famoso “elétrico azul” são citados pela primeira vez em A Sombra do Vento quando Daniel procura pistas sobre o passado de Carax. É também nesta avenida que ele encontra o palacete onde vivera Ricardo Aldaya e a sua família.

Guardei para o fim a visita à Igreja gótica de Santa Maria del Mar que fica localizada no bairro da Ribera, junto à Praça de Fossar de les Moreres. Ela é mencionada por Zafón algumas vezes e a sua presença é relevante na parte final do livro por isso fazia todo o sentido eu terminar aqui o meu passeio.

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A Sombra do Vento é para mim parte de Barcelona, é uma aventura maravilhosa, por vezes sombria e sinistra, mas também uma viagem literária que nunca esquecerei.

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